Exclusão Digital

                    

                       Exclusão digital


                           PAULO ROBERTO FELDMANN (São Paulo, segunda-feira, 05 de fevereiro de 2001)

O início de um ano sempre nos remete a análises dos sucessos e fracassos obtidos no ano anterior
Deveríamos aproveitar, pois, para fazer um balanço do impacto do uso da Internet e de tudo que dela deriva em nosso país. É inegável que ela traz ganhos imensos de produtividade para as empresas e para as pessoas físicas. Diagnósticos médicos podem ser feitos à distância, com o paciente em um país e o médico em outro; novos métodos de aprendizagem revolucionam a educação; e novas profissões têm sido criadas.
No entanto existe o outro lado. Já temos em nosso país várias categorias de excluídos: os da terra, os da educação, os do emprego, os da saúde e os da moradia, entre outros. Agora estamos passando a conviver com um novo tipo de exclusão. Trata-se da exclusão digital.
Ela é tão ou mais grave que as outras, pois já se torna obstáculo para as pessoas obterem empregos dignos.A exclusão digital é o lado ruim da sociedade do conhecimento -esse termo vem sendo usado para designar uma nova forma de sociedade pós-capitalista, na qual o recurso econômico básico deixou de ser o capital, as matérias-primas e até mesmo a mão-de-obra. Nessa sociedade, o que vale para conseguir emprego é o capital intelectual.
Vários estudos começam a aparecer, evidenciando que a economia baseada no conhecimento não se comporta de acordo com a teoria econômica existente. Por exemplo, as teorias tradicionais realçam a importância do consumo e do investimento. Mas é certo que nem o aumento do consumo leva a um aumento do conhecimento nem um investimento maior na economia leva a uma maior produção de conhecimento.
O que provoca, então, o aumento do conhecimento? A resposta é a qualidade da educação e a capacidade do indivíduo de continuar aprender sozinho. Nessa nova concepção de sociedade, o surgimento de novas teorias e de novas informações é tão intenso que é praticamente impossível para um indivíduo ficar atualizado simplesmente pelos meios tradicionais, ou seja, escolas, faculdades e cursos.
Mais de um terço dos trabalhadores norte-americanos já faz parte daquilo que Peter Drucker, o guru dos gurus da área de gestão de empresas, denominou de trabalhadores do conhecimento. São considerados "empregos do conhecimento" aqueles que exigem muita educação, inclusive de nível superior, e enorme necessidade de constante atualização. É inadequado considerar que essas profissões sejam sempre novas ou que pressupõem só habilidades intelectuais. Um bom exemplo é o do médico, do cirurgião que precisa manter-se desafiadoramente atualizado. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável que ele possua habilidades manuais.
No Brasil, infelizmente, o contingente desses novos excluídos poderá ser enorme. Nossas estatísticas na área educacional estão abaixo do sofrível. Só sete países da América Latina possuem mais de 10% de analfabetos. Com os nossos 14,4% de analfabetos, estamos em companhia de República Dominicana, Bolívia, Honduras, El Salvador, Guatemala e Haiti. Tão ruim quanto isso, no Brasil os jovens ainda não estão na universidade.

O acesso à Internet no Brasil ainda está restrito a privilegiados; o risco de uma exclusão social via exclusão digital é enorme

Estudos da OCDE e do Bird mostram que na grande maioria dos países desenvolvidos mais de 40% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 anos estão na universidade. Na Argentina e no Chile, essa taxa é respectivamente de 39% e de 27%. No Brasil, ela é assustadoramente baixa: 15%. O problema se agrava muito na sociedade do conhecimento, pois o papel da universidade se amplifica.
Mesmo assim a universidade é necessária, mas não é suficiente. Todo indivíduo precisa ter acesso a um telefone e a um computador. E, por isso, o desafio para o Brasil é muito maior. Assim como já existe uma grande distância entre a elite universitária e a grande massa de semi-analfabetos, agora essa distância tende a aumentar entre aqueles que têm e aqueles que não têm computador e telefone. Se nada for feito, as enormes diferenças sociais em nosso país vão gerar um "apartheid" digital.
Parece incrível, mas as estatísticas mostram que metade dos brasileiros nunca utilizou um telefone fixo e que, de cada cem brasileiros, só seis possuem computador. Nos EUA, essa taxa é dez vezes maior. Até a Argentina está melhor do que nós. O acesso à Internet no Brasil ainda está restrito às classes privilegiadas. Nesse aspecto as estatísticas divergem, mas variam de 8 milhões a 13 milhões de brasileiros plugados na rede -o que, de qualquer forma, é menos de 10% da nossa população. Nos EUA, essa porcentagem é próxima de 50 %.
O risco da exclusão social via exclusão digital é enorme. O indivíduo, após adquirir uma formação, precisa aprender sozinho para poder se manter atualizado. E a Internet desempenha um papel crucial nessa questão, criando novas fontes de conhecimento ou complementando a escola tradicional.
Se a Internet fica limitada a poucos privilegiados, ela tende a aprofundar ainda mais as diferenças sociais.
Iniciativas como as da ONG Comitê para a Democratização da Informática, do Rio de Janeiro, ou do Instituto Florestan Fernandes, de São Paulo, que querem dotar as populações mais carentes de computadores e de linhas de comunicação, têm se mostrado como um caminho promissor.

No entanto o Estado brasileiro muito pouco tem feito diante dessa questão. E não adianta imaginarmos que o mercado irá resolver esse problema.
No século 21, o poder e a riqueza das nações serão derivados do saber. Um país que não leva em consideração essa questão está fadado a participar do comércio internacional apenas de forma marginal, eventualmente exportando produtos agrícolas. Hoje o que conta são os chamados produtos de alta tecnologia, como computadores, software, celulares e fármacos. Neles, o componente principal é o conhecimento.
Parece evidente que nenhuma nação poderá sobreviver dignamente se não fizer parte da sociedade do conhecimento. O desafio para nós é enorme. Não podemos perder mais tempo.
Paulo Roberto Feldmann, 51, é professor de economia da tecnologia da FEA-USP e diretor do Centro do Comércio da Federação do Comércio de São Paulo. Foi presidente da Eletropaulo (1995-96).


Comentários

  1. A exclusão digital pode ser considerado o lado frágil de uma sociedade moderna,pois somente as classes mas elevadas tem acesso digitalizações no mercado atual de trabalho quem tem um certo conhecimento da area digital tem mas oportunidades de emprego por ser considerado ter habilidades intelectuais.

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  2. no texto exclusão digital, fala sobe o lado bom, e o lado ruim das coisas, ou da vida na tecnologia, o lado bom, a tecnologia pode nos ajuda a ter conhecimento sobre muitas coisas do mundo todo como ter notistas de pais longe saber o que esta acontecendo em qualquer lugar do mundo. a tecnologia também tem lado ruim, como, alguém raque ar seu celular... e ter acesso a muitas coisas particular sua.
    Samila Paula

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  3. A exclusão digital está ligada a aqueles que não possuem acesso as novas tecnologias e meios sociais de comunicação, isso acontece porque o acesso é difícil para aqueles que vivem a margem da sociedade. Algumas pessoas tem mais facilidades de acesso do que outras, isso está relacionado a posição social que elas ocupam na sociedade.

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  4. o texto exclusão digital está claramente falando sobre as pessoas estarem excluídas da via digital, pois, esta restrito a privilegiados e há muitas pessoas que não tem condições de manter internet. alem de tudo isso o texto também faz o comentário sobre o conhecimento que nos precisamos dele para tudo, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais em 2014 foi estimada em 8,3% (13,2 milhões de pessoas), segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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  5. Os novos tempos trazem consigo novas demandas, ao passo que a sociedade evolui e desenvolve diferentes formas de comunicação, o conhecimento torna-se cada vez mais necessário. Nesse sentido, a sociedade do conhecimento do qual trata o texto, pressupõe uma valorização do saberes em todas as áreas, principalmente no campo da tecnologia em que a vida das pessoas está diretamente ligada, pois o universo do trabalho exige indivíduos que saibam operar com as ferramentas digitais. Em contra partida, surge mais uma classe de excluídos, os da exclusão digital, pois nem todos os cidadãos têm acesso ao mundo tecnológico da mesma forma, o que gera uma certa desigualdade social muito comum numa sociedade que privilegia uns em detrimento de outros.

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